Publicado por: Lucival França | janeiro 7, 2007

Eu me Lembro

Dizem que quando nos tornamos adultos ficamos cada vez mais saudosistas. De fato, é uma verdadeira alegria quando encontramos um amigo de infância e que nos faz relembrar momentos vividos. As lembranças são assuntos para música, teatro, artes plásticas e diversas manifestações humanas. A capacidade de acumular memórias é o que nos distancia das demais espécies e o que faz com que possamos recriar/reinventar e ressignificar o universo ao nosso redor. É exatamente isso que acontece no filme Eu me Lembro de Edgard Navarro. O autor mergulha no passado e busca não na totalidade, que é algo impossível quando nos referimos aos seres humanos, mas em nacos de memória, registros da sua existência para (re)contá-la no cinema.

O filme começa narrando as peripécias de uma criaturinha que, como todas as crianças, é capaz de deixar os adultos roxos de vergonha diante da sua naturalidade ao tocar em assuntos indizíveis. Agregado à história do garoto, diversos personagens fazem da película algo muito próximo das experiências de vida de qualquer pessoa. Quem não recorda das histórias infantis de lobisomem, sonâmbulos que percorrem as ruas da cidade ou do vendedor de guloseimas?
Eu me Lembro é completamente permeado de um sentimento chamado saudade. O filme mostra a magia dos festejos de São João, tradicional festa da região Nordeste do Brasil, o caruru de sete meninos, as rezas para Santo Antônio. O filme é também um registro histórico de uma época: as décadas de 60 e 70. Os anos de chumbo em meados da década de 60, período em que o Brasil passou por um dos mementos mais sufocantes da sua história: a Ditadura Militar. A primeira vez que o homem vai à lua é mostrada com o mesmo brilho da primeira vez em que foram mostradas as cenas em 69. Navarro percorre um profundo e poético trajeto de descobertas, conflitos e transgressões, exposto com tanta doçura, que pode transmitir a quem o vê uma certa inquietação, uma vontade de olhar para si – algo que ocorre como que por magnetismo, já que, no fim das contas, essa vontade é o ponto de partida de Eu Me Lembro.

Um filme interessante, mas que revela um dos dramas do cinema brasileiro que é o da distribuição. Premiado por onde passa (são inúmeros os prêmios ganhos por Navarro) a falha nos mecanismos de apoio ao cinema brasileiro que se concentra na produção, não vem acompanhado de mecanismos que incentivem a mídia (publicização) ou a circulação das obras. Enquanto este problema não for sanado não haverá cinema brasileiro independente e continuaremos a engolir goela abaixo os enlatados brilhantemente criticados por Renato Russo em sua canção Geração Coca-cola. Quem dera que todos possuíssem a memória do Sr Navarro!

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

Categorias

%d blogueiros gostam disto: