Publicado por: Lucival França | janeiro 16, 2007

O Shakespeare negro do Bando de Teatro Olodum

As cores vermelho, dourado e preto do figurino já deixa claro que se trata de uma encenação intensa, forte, pulsante. Uma banda com um coro ao vivo mostra a interatividade da montagem. A mistura de rap com arrocha e axé-music demonstra a criatividade e a inventividade. Essa é a cara que o Bando de Teatro Olodum (Cabaré da Rrraça) deu a “O Sonho de Uma Noite de Verão”, obra daquele que é considerado o maior dramaturgo inglês de todos os tempos, Willian Shakespeare. Um espetáculo de luz e cores em que as tiras de pano da cenografia e figurino (assinados por Euro Pires e Márcio Meirelles, respectivamente) nos reportam às tradições culturais dos povos da África e região Nordeste do País. A peça conta com uma direção limpa e autoral de Márcio Meirelles, que faz a sua segunda imersão no universo Shakespereano – a primeira foi com a tragédia Macbeth em 1982.

Em “O Sonho”, Shakespeare reúne elementos corriqueiros, como a paixão e sua impossibilidade, com imagens recorrentes em sonhos, como fadas e duendes, para construir mais uma obra universal, que se destaca entre as 36 peças que produziu, entre tragédias, dramas e comédias. Essa comédia escrita em meados de 1590 conta a história de quatro jovens enamorados que se encontram e se desencontram, tal qual na poesia “Quadrilha” de Drummond (João amava Teresa que amava Raimundo que amava Maria que amava…). Lisandro ama Hérmia que ama Lisandro e é amada por Demétrio, que é amado por Helena; depois, Demétrio ama Helena, que ama Demétrio e é amada por Lisandro, que é amado por Hérmia. A adaptação baiana contou ainda com texto traduzido por Bárbara Heliodora, uma das maiores especialistas do autor no país e direção musical de Jarbas Bittencourt, responsável pelo trabalho de mesclar e transportar os ritmos festivos da Bahia para a obra.

Toda a irreverência do Bando, grupo criado em 1990, que elege como critério de seleção dos atores o seu envolvimento com a cultura e as questões da comunidade negra é colocada em cena nessa remontagem – a primeira encenação foi em 1999, com a Companhia de Teatro dos Novos, outro grupo residente do Vila Velha. No elenco, destacam-se pela atuação AC Costa, como o impagável muro que separava Píramo e Tísbe, na representação metalingüística da tragédia grega de Ovídio (43aC–18dC) e o tarimbado Jorge Washington, como Píramo, que arranca gargalhada da platéia. Se em alguns momentos o texto recitado pelos atores torna-se inaudível a desenvoltura corporal que eles apresentam nas coreografias de Cristina Castro, nos brinda o olhar.

A remontagem de Sonho de Uma Noite de Verão foi escolhida pelo Bando de Teatro Olodum para marcar a participação do grupo no “Projeto Copa de Cultura”, do MinC, que levou em dezembro passado, companhias de artistas brasileiros à Alemanha. O grupo teatral negro mais importante da Bahia ficou entre as cinco companhias de teatro que integram o Projeto Copa de Cultura. Antes disso, o Bando já havia recebido o convite de um produtor alemão para uma viagem de intercâmbio, o que se concretizou com o projeto do MinC. O Bando de Teatro Olodum representou a cultura brasileira, através de uma montagem negra deste clássico do teatro mundial.

Serviço
Sonho de uma Noite de Verão, faz parte, juntamente com outras montagem do projeto “Amostrão Vila Verão” e está em cartaz todo sábado de 05/01 a 10/02 (em vários horários). Os preços dos ingressos são bastante atrativos

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